Desassosego nº1 : Escrevo em Português

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Foi este o primeiro poema escrito no meu caderno do desassossego em Maio. É este o mais antigo, cujo significado terá sempre valor, independentemente do fingimento ou não-fingimento.


Desassossego no. 1


Escrevo em português
Essa língua que faz chorar o fado
e faz morrer o sol de saudade
do mar

Saudade só existe aqui
Mas não se pode ter saudade
de algo que nunca aconteceu

Eu teria saudades tuas
Se te acontecesses em mim

A tinta preta faz a minha letra tenebrosa
parecer ainda mais adamastórica
Mas não importa como escrevo,
Importa é o que escrevo
(nem isso importa)

Não sei como aconteceu,
tal como não soube da última vez.
Ou talvez saiba, mas a minha alma
é demasiado cobarde para o admitir

Não peço desculpa; a desculpa é o
que os fracos usam para
remediar os seus erros

E o meu erro foi fazer de ti
um mar.

Um mar profundo, coberto de ondas,
deixei-me levar.

Levas-me cada vez mais longe,
cada vez mais perto do sonho.
Mas a minha insustentável
crença no fictício é o
principal motor da minha
total perda em ti.

A minha poesia não rima,
não é ordenada
e não é polida.
Mas eu não sou poeta;
sou um sonhador.

Sonho tanto que o impossível
me parece já concretizado
e engano-me a mim próprio,
perco o meu tempo,
iludo-me.

E tu nem sabes.

Mas não deverias nem deverás saber.
Limitas-te a ser.
E eu limito-me a querer ser em ti.

15 de Maio de 2010

0 comentários:

Postar um comentário