Primeiro dos últimos desassossegos

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

aconselho a ouvir enquanto se (re-)lê, eu escrevi-o enquanto isto tocava
(vou juntar várias vezes músicas a poemas em futuras publicações)



Primeiro dos últimos desassossegos



Sol. Luz à espreita, ânsias
de revelar mais.
Mostras de nuvens, céus por demais,
tiram-me do desassossego
mostram-se minhas, mostram-se leais

E são versos, escritos de rompão
que pretendem mostrar o que vejo,
não com os olhos. Emoção.
Algo doce, tímido. Um beijo.

Não sou mais que o que digo ser
não há alquimia, génio ou poder.
Há apenas um desassossego
grande demais para o meu peito conter.

Expulso-o de mim nestas palavras,
esqueço-me das falhas e do cansaço.
é a lamúria, a fraqueza no espírito,
que sinto longe do teu abraço.

Abraço o papel, rasgo vestes de
palavras sem fim.
Espero o cessar, a noite calma
que deixa a escuridão entrar em mim.

Agora sinto, a meu ver,
que não sou quem quero ser.
Tomara em minha ignorância, não o saber.
Ser um feliz louco. Não sofrer.

Desconhecendo o que faço aqui,
seria bom ver céus azuis, e mais.
Sabendo que o quero e não o posso,
sinto o toque e os gestos bons, mas fatais.

Não sou nada, a não ser tudo,
pois tudo o que tenho, não quero.
Posso ser algo, posso até pensar,
mas o desassossego não vai parar,
pois tudo o que não tenho, venero.

28 de Outubro de 2010

Desassossego nº 18 - temer de morte

sábado, 13 de novembro de 2010

decidi postar um mais recente, para verem que não é só uma solidão que compõe um desassossego. este é sobre o sentido da vida, ou o sentido da morte. como lhe quiserem chamar.


Edward Munch - "O Grito"

É um canto triste.
Um acorde de génio
e umas teclas de graça.
A música valsa, pela minha
alma fora, como se uma
gala estivesse ali,
dentro de mim.
traz-me memórias, a dança.
e nostalgia. e saudade.

Dos que estão e dos que já
não estão.
O piano vibra e torna o
ambiente enganador.
É um ambiente de saudade
mas um grito de morte.
Lembra-me que a morte é
o único destino.
Agora escrevo sobre os que
amo,
e sobre os que amei.
Mas temo. Temo de morte,
que ninguém escreva sobre mim.
E quando eu cá não estiver,
se sobre mim não escreverem,
já não irei temer.

Nem um pouco de medo ou dor,
pois já cá não estou.

3 de Agosto de 2010

Desassossego nº 14 - Sem Memória

"La Persistencia de la Memoria" - Salvador Dali


Vou ver o tempo,
uma e outra vez
na esperança que amanhã
faça sol.

mas não tem estado bom tempo
na minha terra, e ela
também não vem no mapa.

Talvez seja demasiado humano,
talvez queira saber demais.

Tudo o que tenho não preciso
e o que não tenho é o
que mais quero.
Quero um mundo novo.

Um mundo em que a
poesia que rima não existe
e um mundo em que
não se sabe o que é pensar.

Um mundo só meu, sem
passado, sem futuro e sem
memórias.

Sem caligrafia, papel ou caneta.
Só eu e o que preciso;
não o que já tenho.

3 de Agosto de 2010

Desassossego nº 2 - A Pauta

isto soa bem melhor com a música ligada.


prefácio

Eu escrevo no papel
e sai-me da cabeça.
“E a suprema glória disto tudo é pensar que talvez isto não seja verdade, nem eu o creia verdadeiro. E quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe mentirmos”. Fernando Pessoa

A vida é uma pauta com uma
clave de sol feita de luz.
Cada nota é um pensamento,
cada colcheia uma paixão e
cada pausa uma desilusão.

A música que a pauta esconde
depende do seu compositor.
Pode ser alegro, pode ser adagio,
pode até ser um fado. Carregado de dor.

A minha pauta esconde uma valsa
com um violoncelo e um piano sem cor.
As notas choram como o canto
alegre de uma ave triste, um condor.

E espero pelo dia em que,
desacreditando Bach e Strauss,
seja eu o teu compositor.


15 de Maio de 2010

Desassosego nº1 : Escrevo em Português

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Foi este o primeiro poema escrito no meu caderno do desassossego em Maio. É este o mais antigo, cujo significado terá sempre valor, independentemente do fingimento ou não-fingimento.


Desassossego no. 1


Escrevo em português
Essa língua que faz chorar o fado
e faz morrer o sol de saudade
do mar

Saudade só existe aqui
Mas não se pode ter saudade
de algo que nunca aconteceu

Eu teria saudades tuas
Se te acontecesses em mim

A tinta preta faz a minha letra tenebrosa
parecer ainda mais adamastórica
Mas não importa como escrevo,
Importa é o que escrevo
(nem isso importa)

Não sei como aconteceu,
tal como não soube da última vez.
Ou talvez saiba, mas a minha alma
é demasiado cobarde para o admitir

Não peço desculpa; a desculpa é o
que os fracos usam para
remediar os seus erros

E o meu erro foi fazer de ti
um mar.

Um mar profundo, coberto de ondas,
deixei-me levar.

Levas-me cada vez mais longe,
cada vez mais perto do sonho.
Mas a minha insustentável
crença no fictício é o
principal motor da minha
total perda em ti.

A minha poesia não rima,
não é ordenada
e não é polida.
Mas eu não sou poeta;
sou um sonhador.

Sonho tanto que o impossível
me parece já concretizado
e engano-me a mim próprio,
perco o meu tempo,
iludo-me.

E tu nem sabes.

Mas não deverias nem deverás saber.
Limitas-te a ser.
E eu limito-me a querer ser em ti.

15 de Maio de 2010

O início

quarta-feira, 10 de novembro de 2010




Depois de muito dilema, pedidos e reflexão, decidi dar a conhecer (parte) de algo que faço em momentos súbitos nos quais as palavras me surgem na mente tão rápido como fogem. Poesia. Reflexões. Um caderno do desassossego inspirado por muitas coisas ao mesmo tempo, em muitos sítios ao mesmo tempo. Todos da minha autoria, todos escritos a tinta no papel, passados a teclas mais tarde. E todos tão meus, que não deixarão de ser meus, se forem meus e de toda a gente.


não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada.